quinta-feira, novembro 25

781.844.494

O gosto ríspido das tuas palavras me agride. Corro
Assustado na direção (ambígua) de mim mesmo
E me escondo nos escombros do (sombrio) morro
Do meu Ego dilacerado - Orfeu no mar a esmo.

Quem sou eu para tentar te buscar de tão longa distância
- Caminho enegrecido pelas amarguras horrendas do destino -
Ainda mais sem olhar para trás (e bem, ainda muito me alucino
Com a falta tremenda dos teus olhos cravejados de infância).

Com que notas eu comporia uma canção que fosse triste o suficiente
Para explicar ao mundo o quão implacável e dilacerante foi tua ausência?
Que voz (eterna) não desafinaria (nó-na-garganta) por cantar tua carne sacra?

Como - sem te ver sorrir - ser suavemente bom ou grotescamente sorridente?
Hoje ajo como um devasso que (dentre outros pecados puros) até aprecia
O sofrido (chumbo pesado, venenoso) cofre cinza e vermelho onde (ele mesmo) se lacra.

quinta-feira, novembro 11

12.131

Atuação
Inata
Destes
(Símios)
Me arrebenta. Quero uma
Liberdade
Campesina,
Quero décimo-terceiro salário,
Quero o saleiro
Cheio.
Quero tragédia
E dor (alheia),
Quero pouco
Mais
Do
Que
A rima.

(Quero extrair mel
Do sol que brilha
Amarelo sobre o mar
Do mundo azul e verde
De teus olhos perdidos)

26.587

Traço lento. A manhã transcorre
Reta,
Lúcida,
Perdida entre o vão das casas
E entre
O friso
Da Vida.

Escorro,
Desejoso
E suave
Por entre luzes brandas e frios metálicos
(Com gosto de navalha).
Tento extrair todo o calor
(Que há)
Do chão,
Cerco a vida por todos os lados na emboscada
Da poesia - da melancolia - da existência...

E o que sobra? O resto são pássaros
Incestuosos
E ervas (ralas)
A enfeitar
O meu não-jardim.

É a lama dos buracos
Que me lembra que estou (vivo).

terça-feira, novembro 2

324

Que poder sinto fluir
Em meu olho
- Olho que tudo vê,
Olho que vê no escuro -
Tão de repente e tão
(Retumbante)
(E) vivo(!)?

Em que pulso
Eu pulso?
Eu quero
O poder
(Impenterável)
Do cosmo.

sexta-feira, outubro 22

9.631

O que morrerá de mim?
Ouvi dizer (as vozes miúdas)
Que só morrem os suicidas
Que não deixam cartas.

E eu, que busco me confessar,
O que, então, restará de mim?
Por que tento me explicar,
Se tanto sei do destino das coisas?

A morte galopa;
A rima é inútil como a musa.
O que - então - restará de mim?

(Ouvi dizer, as vozes miúdas,
Que somente partem, verdadeiramente,
Aqueles que fogem sem dizem aonde vão...)

segunda-feira, outubro 18

76.000

Eu não me preocupo mais.
Morra (eu) ou não,
Torne (se) a verdade
- Ou não -
Aquilo que pensei, escrevi,
Senti ou concluí,
Tanto faz...
O Big Bang
Resultou em luz e magnetismo
E impostos e menstruações e calor
- Muito calor - E estrelas e livros
(De filosofia e poesia)
E sentimentos.
Tanto faz...
O Big Bang deu origem a tudo,
Menos
A algum sentido.
Não existe tal sentido.

Vejo - e prefiro ver -
Formas escondidas nas formas.
Há um macaco sorrindo nas manchas
Da minha desgastada
Toalha de banho,
Pendurada na porta de meu quarto
(E nas ondas da madeira
Da porta de meu quarto,
Um barco escuro desbrava
O lago plácido do anoitecer).

Eu não me preocupo mais.
Minha vida quase não existe
Diante da grandeza do universo
- E sei que, um dia, não passarei
De eletrecidade - desprendida - azul
Como as estrelas mais brilhantes.

É isso que quero e que faço
Da luz que presencio:
A busca apaixonada e minuciosa
De coisas nas coisas.

segunda-feira, setembro 27

89.898

Não há motivo para a poesia da negação,
Não há motivo para o não, o nada, não, não há.
O que quero é, enfim, o vento bravo (então)
Que virá (não) como o que não, não, não há.

Quem pode condenar? Quero o mundo.

quarta-feira, agosto 25

415.187

Não sei que leveza me inspiras,
Com tua brancura de menina
(Que pulou as cercas do mundo
E perdeu o coração nos matos
E vales e morros),
Com teus olhos de maré cheia,
Com teus olhos de fruta madura
- E até mesmo cheiras a mulher madura -
Só sei que, dentre todas as coisas,
As luzes, as aves e as tardes de vento no céu
Cinza, o silêncio do meu quarto e a eternidade
Do espaço negro, a noite dos encantos ancestrais,
É só em ti que o pensamento repousa farto,
É só em ti que o pensamento germina o sorriso
(Teus olhos, pois, parecem ter uma doçura
Que o homem vê apenas quando, nu, desbrava
A selva do alvorecer e deflora o fruto e o fumo
De uma terra sábia e repleta de gentilezas; teus
Olhos, pois, são o último raio da última tempestade
Do verão dos verões). Teus olhos
São poesia.

terça-feira, julho 27

418.919

Antes de mais nada, quero destacar
Este humilde poema
- Escrito com o breve gosto
Da liberdade imaturamente inconsequente -
Como uma carta que virá para te contar
Notícias (boas).

Tenho vivído bem, tenho me alimentado
Mal, tenho fumado muito e tenho
Ficado acordado as madrugadas
Inteiras,
Escrevendo os ditames de um mundo
Que criei para nós, mais pacífico
E farto - onde o principal objetivo
É não ter objetivos, onde podemos ser,
Fisicamente,
Livres.

E ele está quase pronto - nosso mundo
Utópico - se bem que ainda penso
Em adicionar algumas cachoeiras e
frutas... Mesmo assim, assim que leres
Este poema, trates de vir me ajudar
A mobiliar
A nossa moradia.

Sem mais,
Despeço (me)
Que
Inda há
Muito trabalho
A fazer:

Do sempre teu - que aguarda,
Ansiosamente,
Teus seios.